Instituto Veritá enfrenta proibições de divulgação em vários estados e no Distrito Federal por irregularidades | Foto: Reprodução

Menos de dez dias após registrar uma pesquisa para avaliar a intenção de voto para as eleições de 2026 no Maranhão, que foi alvo de contestação judicial, o Instituto Veritá registrou novamente um levantamento no estado, repetindo algumas divergências entre o que foi registrado e o que será efetivamente aplicado aos entrevistados.

O método selecionado para coletar opiniões será novamente por meio de ligações telefônicas, uma abordagem que tem sido criticada desde 2018 pela Associação Brasileira de Empresas de Pesquisa (Abep), que desaconselha seu uso para pesquisas de intenção de voto eleitoral.

Além de insistir em um método não recomendado pela associação do setor, uma análise conduzida pelo blog do Isaias Rocha, utilizando dados disponíveis no PesqEle – Sistema de Registro de Pesquisas Eleitorais do TSE, voltou a identificar pelo menos identificou pelo menos três possíveis irregularidades no estudo, e pelo menos uma delas seria suficiente para justificar a suspensão imediata da divulgação pela Justiça Eleitoral.

De acordo com as informações obtidas, o estudo tem como objetivo avaliar apenas cenários para governador e senador. O questiorio, no entanto, fez perguntas sobre a intenção de voto para outros cargos eletivos, como o de presidente da República, sem que tais informações fossem oficialmente registradas.

O questionário também não apresenta pergunta espontânea, aquela em que o entrevistador questiona o entrevistado sem apresentar uma lista de alternativas ou nomes. Além disso, constam cenários de possíveis confrontos entre presidenciáveis no segundo turno, informações que também não constam no registro como exigido pela legislação eleitoral. Eis a íntegra do questionário (PDF – 2 MB)

Estudo carece de fidedignidade

A  metodologia empregada pela empresa carece de fidedignidade, uma vez que a realização por chamada telefônica automatizada suscita dúvidas em relação á origem da lista de contatos utilizada. Foi baseado nisso que a Justiça Eleitoral acolheu parecer do MP Eleitoral e multou o mesmo instituto por pesquisa irregular no Pará.

A decisão, assinada pelo juiz auxiliar da propaganda do TRE-PA, Flávio Sanches Leão, ordenou que o Veritá interrompa qualquer nova divulgação dos resultados e pague uma multa de R$ 53,2 mil. A medida foi publicada neste domingo (6).

Segundo as informações, a representação foi proposta por uma coligação partidária que apontou supostas irregularidades na pesquisa, incluindo o método de entrevistas por ligações telefônicas automáticas (robocalls), a capacidade financeira do instituto para custear o levantamento e distorções no perfil dos eleitores entrevistados.

Ao analisar o caso, o MP Eleitoral esclareceu que a lei permite aos institutos escolherem métodos como entrevistas por robô ou o uso de recursos próprios para pagar a pesquisa. Contudo, o Parquet destacou que é dever fundamental do instituto indicar claramente a fonte e comprovar como chegou àqueles números, para que qualquer cidadão ou partido possa fiscalizar a seriedade da amostragem.

Metodologia questionável 

O blog do Isaías Rocha verificou os detalhes sobre o método junto ao TSE. Em termos práticos, a pessoa receberá uma ligação e do outro lado terá uma gravação (um robô), com questionário estruturado. Dessa forma, se uma resposta for incorreta ou se a pessoa não entender direito a pergunta, como será feita a explicação?

Sem falar no fato de que idosos e alguns grupos possuem certa dificuldade em lidar com atendimento mecanizado. Para dificultar a situação, muitas pessoas nem atendem ligação de número desconhecido e se tiver um robô do outro lado, pior ainda.

O fato é que essa metodologia levanta mais dúvidas do que certezas e gera mais perguntas do que respostas. Em modalidades como essas, não há pesquisadores atuando diretamente em campo, o que significa que não existe coleta de dados no estado realizada por profissionais.

Capacidade financeira questionada

Em julho, o Veritá chegou a ser apontado como um dos institutos que estariam contornando regras em pesquisas autofinanciadas. Na ocasião, uma reportagem da Folha revelou que a empresa registrou 93 pesquisas utilizando recursos próprios neste ano, acumulando um gasto total de R$ 10,8 milhões. Esse valor supera tanto o lucro quanto a receita bruta declarados pelo instituto no ano anterior, que foram de R$ 927 mil e R$ 3,8 milhões, respectivamente. Eis a íntegra do relatório contábil (PDF – 395 KB)

Como utilizar IA para pesquisas de voz?

De acordo com o TSE e a Resolução nº 23.610, de 18 de dezembro de 2019, alinhados à LGPD (Lei nº 13.709, de 14 de agosto de 2018), pesquisas com voz e inteligência artificial podem ser realizadas, desde que cumpridos alguns requisitos.

Sintetizamos a pesquisa em 8 critérios principais:

1. A ligação deve ser identificada, isto é, explícita sobre o intuito eleitoral.

2. O usuário deve permitir a ligação para coleta de dados.

3. Deve-se sinalizar que a pesquisa está sendo feita por inteligência artificial (se for o caso).

4. O usuário deve permitir a realização da entrevista.

5. As perguntas não podem induzir o voto, divulgar candidatos ou candidaturas, mencionar o número ou partido. O objetivo é apenas recolher o ponto de vista da pessoa sem expô-la.

6. Deve-se ter mecanismos de proteção de dados adequados, para que o nome desses respondentes esteja protegido. Assim, a pesquisa deve ser anônima.

7. A voz dos candidatos não pode ser utilizada na pesquisa, ou seja, deve-se utilizar uma voz neutra.

8. A imagem de nenhum candidato pode ser utilizada para a coleta de dados. Caso utilize alguma imagem, também precisa ser neutra.

Dados da pesquisa

pesquisa autofinanciada foi registrada no último sábado, 5, e começou a ser aplicada na mesma data, com coleta prevista até a próxima quinta-feira, 10 de setembro, e divulgação autorizada na sexta-feira, 11. O estudo prevê a realização de 1.525 entrevistas aplicadas mediante questionário eletrônico estruturado.

margem de erro estimada é de 3 pontos percentuais, para mais ou para menos, com nível de confiança de 95%. A pesquisa está registrada com o código MA-06401/2026. O estatístico responsável informado é Guilherme Alvarenga Laia, registrado no CONRE sob o número 10699.

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